Assine O Caxiense e ganhe livros da Modelo de Nuvem!
O melhor do Jornalismo + O melhor da Literatura
Assine O Caxiense e ganhe até 3 livros da Modelo de Nuvem!
Saiba mais em: www.ocaxiense.com.br
Das pontes, sobretudo
Quando em vez, ao nos pormos a ler, tomamos um qualquer dos muitos possíveis desvios que nos permite o texto. Lendo Interpretação e superinterpretação [Eco], me deparo com um pequeno passo em que pra modo de bem se explicar o modus [o manter-se dentro dos limites e das medidas, que parece comportar em si o mesmo receio grego de incorrer em desmesura, mas, aqui, medo já posto em regras]. O modus parece ter um amplo alcance, sendo a base de um viver mais racional [tenha modos menino!]. Nele vamos encontrar uma faceta lógica, que aceita os três princípios da lógica aristotélica [de identidade, da não contradição, e do terceiro excluído]. Mas em Roma nada se faz só especulação. Há de se encontrar sempre um aspecto legal e contratual. O que aqui deriva na importância que se dará a questão da defesa das fronteiras, da preservação dos limites territoriais. [E talvez por conta das diferenças entre o Ares grego e o Marte romano] Se coloca o problema: como vamos expandir o nosso império?[e aqui não mais se especula, e sim se opera, o modus se faz operandi].
Se temos que expandir nosso império, teremos sim de nos haver com os limites, com as fronteiras. Neste ponto Eco lembra quão importante eram as pontes em Roma. Justamente porque elas comportam algo de potencialmente sacrílego, pois elas transpõem os vaus, ligam o que se pusera separado, se propõem a supressão de limites. Eco lembra que construir pontes em Roma era tarefa entregue aos auspícios de um pontífice [construtor de pontes e também autoridade religiosa].
Aqui deixamos de acompanhar o curso do texto e tomamos um primeiro desvio. Algo por dentro das ideias que nos passam na mente se põe a crescer. Algo de um bulício inda esperando se acalmar queria já se por andar em outras direções. E, por fim, deixamos o texto e recordamos Janus bifronte, que nos mostra duas de suas faces, aquelas feitas de saudade e desejo, de memória e imaginação, e que, no entanto, escondia a sua verdadeira face, que era o limiar, o beijo, o enlace que denominamos tempo presente. Por fim, nos aproximando um pouco mais e observando melhor, percebemos, Janus, o Senhor do Limiar, também é uma ponte.
Mas como tudo na mente parece seguir aos saltos, vamos tocando em frente, até chegarmos a uma prainha junto ao córrego. Apeamos. Descansamos um pouco as ideias. E nos pomos a acompanhar novamente o curso da leitura. Agora Eco lembra que o mundo de Hermes não é o mundus do modus romano. Mas é onde o princípio nem sempre coincide com o início, onde o fim nem sempre acaba. Aqui nem sequer aprendemos lógica, ou simplesmente já a esquecemos. Aqui a lógica é a de quem foi pego pela contradição, de quem segue em acordo e desacordo consigo, onde tudo que se é é ao mesmo tempo, onde a trajetória é o susto.
Então, num repente recordamos o que Buber nos conta em Histórias do rabi: Um rabino de Cracóvia, vivendo em penúria, contudo fiel a D’us, tem um sonho. Lhe é dito neste sonho, que se for até a ponte que leva ao palácio do rei lá encontrará um tesouro. Então, faz a viagem. Chega a ponte. A ponte é guardada dia e noite. Ele teme cavar. Fica rondando o lugar. O chefe da guarda, que o observara, o chama. Ele conta porque estava ali. – Tu, então, crês em sonhos! Pois, fosse eu crer em sonhos deveria ir até Cracóvia, na casa de um certo rabino e cavar embaixo do forno de sua casa, que lá encontraria um tesouro – O rabino se despede e volta pra casa.
E parece que assim podemos chegar a compreender estes dois modos de estar no mundo, aquele que se confunde com um dos campos em que nos põem as fronteiras. E o outro que sabe que aquilo que entendemos como o lócus que habitamos se ergue sempre sobre um limiar. Mas é a issozinho somente, assim, onde nos trouxe este hábito tolo de se pôr a ler como quem lustra quinquilharias, esperando topar com uma qualquer lâmpada que nos liberte o gênio do lugar.
Aprender
O livro chegara recentemente. Gostei bastante dele quando comecei a folheá-lo. Aquilo ali escondia um bom número de signos impressos a serem desbaratados. Signos agora ali postos a altura da mão. Neste momento somos meros conhecidos. A aposta agora é desenvolver uma experiência, um querer bem, e se possível até um amorzinho entre nós.
Vêm os dias. E nos guardamos ali na esperança de sermos úteis, tivemos de sair das trevas das nossas alcovas tépidas de nosso desfalecer cotidiano, desfalecer na servidão dos sentidos e instintos em que habitamos, que nos fazem iguais e nos nivelam e nos dizem que ainda podemos esperar nos reconhecer neste outro que também traz consigo este saco de gulas e desejos em tudo semelhante ao que carregamos. Mas se queremos ser gente haveremos de condescender um pouco com tudo isto. E ainda que não percebamos, mesmo aqui temos um pouco de luz. Algo de uma luz reflexa, de uma luz fria e muito pouco nossa. Feita de copia, e de métrica.
Noites e dias passam depressa. Seguimos a dar de olhos um no outro. Nos acostumamos um com o outro. E neste momento podemos já falar de um saber recôndito, despegado da letra, acostumado às reentrâncias de cada um de nós, e daquilo que o tempo determinou de aperfeiçoamento nos encaixes. E assim nos pusemos a nos despossuir daquele saber antigo e natural vindo de nossos pais, todo prescrição, todo feito de boas maneiras, normativas e convenções. Agora tu queres, ou melhor que isso, tu percebes o inscrito. E inscreves. Nada mais é relativo aqui na nossa relação. Nos pusemos a caminhar na mesma direção. Podemos dizer que formamos um time. De conhecidos que éramos passamos a parceiros, a companheiros de jornada.
Mas nada disso haveria de nos acontecer se não fora este istozinho que está para além de nós. Os teus signos, e a nossa esperança nada seriam se a pergunta não te fosse arrojada à face. Se não fôssemos tomados pelo susto. Pois Alice não veio aqui a passeio. E não há nada de absurdo no absurdo que nos cerca. E no fim, e no meio e no princípio de tudo, bem lá do alto do seu cogumelo, sempre resta, uma lagarta a nos perguntar: quem é você?















