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Das pontes, sobretudo



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Quando em vez, ao nos pormos a ler, tomamos um qualquer dos muitos possíveis desvios que nos permite o texto. Lendo Interpretação e superinterpretação [Eco], me deparo com um pequeno passo em que pra modo de bem se explicar o modus [o manter-se dentro dos limites e das medidas, que parece comportar em si o mesmo receio grego de incorrer em desmesura, mas, aqui, medo já posto em regras]. O modus parece ter um amplo alcance, sendo a base de um viver mais racional [tenha modos menino!]. Nele vamos encontrar uma faceta lógica, que aceita os três princípios da lógica aristotélica [de identidade, da não contradição, e do terceiro excluído]. Mas em Roma nada se faz só especulação. Há de se encontrar sempre um aspecto legal e contratual. O que aqui deriva na importância que se dará a questão da defesa das fronteiras, da preservação dos limites territoriais. [E talvez por conta das diferenças entre o Ares grego e o Marte romano] Se coloca o problema: como vamos expandir o nosso império?[e aqui não mais se especula, e sim se opera, o modus se faz operandi].

Se temos que expandir nosso império, teremos sim de nos haver com os limites, com as fronteiras. Neste ponto Eco lembra quão importante eram as pontes em Roma. Justamente porque elas comportam algo de potencialmente sacrílego, pois elas transpõem os vaus, ligam o que se pusera separado, se propõem a supressão de limites. Eco lembra que construir pontes em Roma era tarefa entregue aos auspícios de um pontífice [construtor de pontes e também autoridade religiosa].

Aqui deixamos de acompanhar o curso do texto e tomamos um primeiro desvio. Algo por dentro das ideias que nos passam na mente se põe a crescer. Algo de um bulício inda esperando se acalmar queria já se por andar em outras direções. E, por fim, deixamos o texto e recordamos Janus bifronte, que nos mostra duas de suas faces, aquelas feitas de saudade e desejo, de memória e imaginação, e que, no entanto, escondia a sua verdadeira face, que era o limiar, o beijo, o enlace que denominamos tempo presente. Por fim, nos aproximando um pouco mais e observando melhor, percebemos, Janus, o Senhor do Limiar, também é uma ponte.

Mas como tudo na mente parece seguir aos saltos, vamos tocando em frente, até chegarmos a uma prainha junto ao córrego. Apeamos. Descansamos um pouco as ideias. E nos pomos a acompanhar novamente o curso da leitura. Agora Eco lembra que o mundo de Hermes não é o mundus do modus romano. Mas é onde o princípio nem sempre coincide com o início, onde o fim nem sempre acaba. Aqui nem sequer aprendemos lógica, ou simplesmente já a esquecemos. Aqui a lógica é a de quem foi pego pela contradição, de quem segue em acordo e desacordo consigo, onde tudo que se é é ao mesmo tempo, onde a trajetória é o susto.

Então, num repente recordamos o que Buber nos conta em Histórias do rabi: Um rabino de Cracóvia, vivendo em penúria, contudo fiel a D’us, tem um sonho. Lhe é dito neste sonho, que se for até a ponte que leva ao palácio do rei lá encontrará um tesouro. Então, faz a viagem. Chega a ponte. A ponte é guardada dia e noite. Ele teme cavar. Fica rondando o lugar. O chefe da guarda, que o observara, o chama. Ele conta porque estava ali. – Tu, então, crês em sonhos! Pois, fosse eu crer em sonhos deveria ir até Cracóvia, na casa de um certo rabino e cavar embaixo do forno de sua casa, que lá encontraria um tesouro – O rabino se despede e volta pra casa.

E parece que assim podemos chegar a compreender estes dois modos de estar no mundo, aquele que se confunde com um dos campos em que nos põem as fronteiras. E o outro que sabe que aquilo que entendemos como o lócus que habitamos se ergue sempre sobre um limiar. Mas é a issozinho somente, assim, onde nos trouxe este hábito tolo de se pôr a ler como quem lustra quinquilharias, esperando topar com uma qualquer lâmpada que nos liberte o gênio do lugar.


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Aprender

O livro chegara recentemente. Gostei bastante dele quando comecei a folheá-lo.  Aquilo ali escondia um bom número de signos impressos a serem desbaratados. Signos agora ali postos a altura da mão. Neste momento somos meros conhecidos. A aposta agora é desenvolver uma experiência, um querer bem, e se possível até um amorzinho entre nós.

Vêm os dias. E nos guardamos ali na esperança de sermos úteis, tivemos de sair das trevas das nossas alcovas tépidas de nosso desfalecer cotidiano, desfalecer na servidão dos sentidos e instintos em que habitamos, que nos fazem iguais e nos nivelam e nos dizem que ainda podemos esperar nos reconhecer neste outro que também traz consigo este saco de gulas e desejos em tudo semelhante ao que carregamos. Mas se queremos ser gente haveremos de condescender um pouco com tudo isto. E ainda que não percebamos, mesmo aqui temos um pouco de luz. Algo de uma luz reflexa, de uma luz fria e muito pouco nossa. Feita de copia, e de métrica.

Noites e dias passam depressa. Seguimos a dar de olhos um no outro. Nos acostumamos um com o outro. E neste momento podemos já falar de um saber recôndito, despegado da letra, acostumado às reentrâncias de cada um de nós, e daquilo que o tempo determinou de aperfeiçoamento nos encaixes. E assim nos pusemos a nos despossuir daquele saber antigo e natural vindo de nossos pais, todo prescrição, todo feito de boas maneiras, normativas e convenções. Agora tu queres, ou melhor que isso, tu percebes o inscrito. E inscreves. Nada mais é relativo aqui na nossa relação. Nos pusemos a caminhar na mesma direção. Podemos dizer que formamos um time. De conhecidos que éramos passamos a parceiros, a companheiros de jornada.

Mas nada disso haveria de nos acontecer se não fora este istozinho que está para além de nós. Os teus signos, e a nossa esperança nada seriam se a pergunta não te fosse arrojada à face. Se não fôssemos tomados pelo susto. Pois Alice não veio aqui a passeio. E não há nada de absurdo no absurdo que nos cerca.  E no fim, e no meio e no princípio de tudo, bem lá do alto do seu cogumelo, sempre resta, uma lagarta a nos perguntar: quem é você?


Livros como um quadro de Magritte

Leia o texto de Kelvin Falcão Klein, publicado no Suplemento Cultural de Pernambuco, sobre o processo de publicação de “Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas”

Quando levei o material com minhas conversas com Enrique Vila-Matas (anotações, gravações, fotos) ao meu editor, ele disse o seguinte: “A entrevista é um dos gêneros literários que mais gosto”. Começamos, então, a relembrar nossos livros de entrevistas prediletos. Ele escolheu as conversas de Julio Cortázar com Ernesto Bermejo. Eu escolhi as de Claude Lévi-Strauss com Didier Eribon. Meu livro seria o primeiro do gênero publicado pela Modelo de Nuvem, e era preciso acertar os detalhes, era preciso acertar o tom, um tom que levaria ao meio do caminho, entre a apropriação e a criação.
Passamos a discutir um ponto que parece recorrente nessas conversas: o entrevistado frequentemente faz referência ao acaso para explicar o início de sua produção, seja ela ficcional, crítica ou ambas. Passamos a revisar, em nossa discussão, todas essas conversas que conseguíamos lembrar (Borges com Osvaldo Ferrari, Truffaut com Hitchcock, Paul Valéry com Edgar Degas etc), e o acaso sempre aparecia. Talvez o acaso com outras máscaras, o acaso como uma força que empurrava o sujeito numa direção oposta àquela que ele desejava, e só muitos anos depois descobre-se que, no fim das contas, o “caminho oposto” era o melhor caminho.
Nesse momento, Marco, meu editor, que é também médico e poeta (ele tem uma foto de André Breton em sua mesa de trabalho, Breton com o uniforme militar de médico, durante a I Guerra Mundial), me contou uma história que ele disse ter ouvido de sua avó, quando pequeno, em Uruguaiana, sua cidade natal.
Era a história de um sacristão, um auxiliar de padre, que, depois de mais de 20 anos de trabalho dedicado, é dispensado por ser analfabeto – havia chegado uma ordem da hierarquia eclesiástica determinando que todas as pessoas empregadas pela Igreja tinham que saber ler e escrever.
O ex-sacristão, furioso com o absurdo da situação, foi embora. No longo caminho para casa, sentiu vontade de fumar, e viu que não havia nenhum lugar que vendesse cigarro nas redondezas. Diante disso, pegou o pouco dinheiro que tinha e investiu na montagem de uma tabacaria, depois abriu outra, e mais outra e mais outra, até que, passados alguns anos, ficou rico.
O ex-sacristão tinha tanto dinheiro, contava Marco, que precisou abrir uma conta num banco. O diretor, ao descobrir que ele não sabia como preencher formulários ou assinar seu nome, ficou muito surpreso e disse: “Se o senhor, sem saber ler e escrever, ganhou todo esse dinheiro, imagine onde estaria se fosse alfabetizado”. E o ex-sacristão imediatamente respondeu: “Eu sei exatamente onde estaria: limpando o chão de uma igreja por um salário miserável”.
Marco não explicou a história, simplesmente deu risada e partiu para outro assunto, mas eu penso que ela serve de imagem para a seguinte constatação: nada mais falso do que a fronteira que separa vida e ficção. Ou ainda: a vida é tão verossímil quanto a história mais pitoresca de Bohumil Hrabal ou Witold Gombrowicz. Tudo na vida existe para levar a um livro, e vice-versa. A literatura opera a partir do excesso, transbordando para o cotidiano. A verdadeira tarefa não é identificar a realidade como uma ficção, mas mostrar que pode haver algo na ficção que é mais do que literatura, porque a realidade é tão “construível” quanto a ficção.
Quando eu disse isso ao Marco, fiquei sabendo que a sua editora, a Modelo de Nuvem, tinha sido criada justamente para investir nesse intervalo tão pouco observado entre realidade e literatura. “Pense, por exemplo, num quadro de René Magritte”, disse Marco. “Foi de lá que tiramos o nome da editora e o símbolo do guarda-chuva”, ele continuou, como se abrisse um parêntese. “Um quadro de Magritte, como aquele que mostra um homem que contempla a própria nuca no reflexo do espelho, ou aquele das botas que se tornam pés, um quadro de Magritte é a possibilidade de ver o mundo a partir de outro filtro, numa espécie de combinação diabólica do possível com o impossível”.
Se Magritte, com suas imagens do desejo que sempre foge, era um dos modelos para a Modelo de Nuvem, eu estava autorizado a concluir que a escritura de um livro jamais termina, ela está sempre recomeçando. Algo semelhante a isso pensava Walter Benjamin, quando, em Rua de mão única, afirma que a obra é a máscara mortuária da ideia: a concepção estará para sempre circulando, ainda que o livro esteja pronto.
Antes que as Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas chegassem à Modelo de Nuvem, ela já contava com um breve e poderoso catálogo de poesia – inclusive Fim das coisas velhas, do próprio Marco de Menezes, ganhador do Prêmio Açorianos de Literatura em 2010 (em duas categorias: poesia e livro do ano). E como a poesia sempre soube manter em si a ideia da escrita como um desenho (como um capricho caligráfico), me pareceu natural que os livros editados pela Modelo de Nuvem fossem tão bonitos. A poesia é também um filtro diante do mundo: “Poesia / extravio da bagagem / em outra margem”, como diz um dos versos de Fim das coisas velhas. Quando Marco me disse “Será um prazer publicar o seu livro sobre Vila-Matas”, eu pensei comigo: “Espero que eu ganhe uma capa tão linda quanto as outras”.
Mais do que uma capa, ganhei um livro inteiro. Marco já era um leitor de Vila-Matas, o que facilitou nosso processo de aproximação e a posterior recepção do livro. Nós dois sabíamos que um livro sobre um escritor tão atípico não poderia ser convencional. Não poderia ser o tipo de livro que você “pode contar a história”, ou “resumir a trama”. Precisávamos de um livro que pudesse implodir fronteiras, como fazem os livros de Vila-Matas ou os quadros de Magritte. Mesmo que ficasse apenas na tentativa, isso não retirava o imperativo de que era preciso tentar. A partir daí, foram inúmeras leituras e reescrituras do texto, até que o produto final pudesse ser chamado de “livro” e esse livro pudesse ser chamado Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas. Foram necessários os três editores da Modelo de Nuvem para polir o texto bruto: Marco de Menezes, Camila Cornutti e Cristian Marques.

 

A capa é simples: uma fotografia de Fabiano Scholl mostra uma velhinha simpática de avental, usando um telefone público na calçada de uma cidade qualquer (quando Fabiano me mostrou a imagem, tentei adivinhar: disse que era Buenos Aires; depois fiquei sabendo que não, que é Arequipa, no Peru). A capa de Conversas apócrifas… segue uma lógica muito própria da Modelo de Nuvem: fotos originais, de fotógrafos jovens e talentosos, que iluminam o texto que guardam e que contribuem com esse texto trazendo ideias a partir da imagem. O projeto gráfico dos livros consegue ser vívido e impressionante sem precisar “lembrar” algum visual alheio, de sucesso anterior. Tudo converge na apreciação material do texto: a fonte utilizada, o tipo e a cor do papel, o espaçamento das linhas, a paginação.
Ao percorrer o livro, fico tentado a achar que aquela velhinha simpática da capa é uma cúmplice, alguém que guarda um segredo a respeito do meu próprio livro, habilmente escondendo a boca, para que eu não saiba se fala sério ou se brinca. Essa é uma das maiores potências da imagem: ao mesmo tempo em que nos oferece tanto, tantas possibilidades de leitura e de questionamento, algo nela permanece sempre enigmático, impossível. Editar um livro ao lado de pessoas tão sensíveis, como essas que encontrei na Modelo de Nuvem, dá margem para a seguinte conclusão: a leitura pode não mudar o mundo, mas nos dá amigos, e isso deve bastar.

Kelvin Falcão Klein é autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas


Marco de Menezes é novamente finalista do Prêmio Açorianos de Literatura

O poeta Marco de Menezes é mais uma vez finalista do Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Poesia, com o livro “Ode Paranoide”, publicado pela Modelo de Nuvem.

Os finalistas foram divulgados no final da tarde do dia 03/11, pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre.

Em 2010 Marco venceu as categorias Poesia e Livro do Ano com o livro “Fim das Coisas Velhas”.

O anuncio dos vencedores será na Noite do Livro, em 12 de dezembro, às 20h, no Teatro Renascença.

Veja a lista completa dos finalistas:

- Categorias não literárias

CAPA

ENTRE DOIS MUNDOS: A JORNADA DE SHEUN MING LING
Autor: Eduardo Bueno – Capa: Sandro Fetter
Buenas Idéias

LEIA-ME TODA
Autor: Claudia Schroeder – Capa: Felipe Drummond
Editora Dublinense

QUERO SER REGINALDO PUJOL FILHO
Autor: Reginaldo Pujol Filho – Capa: Samir Machado de Machado
Não Editora

PROJETO GRÁFICO

40 MICROCONTOS EXPERIMENTAIS
Autor: Airton Catt ani – Projeto Gráfico: Airton Cattani
Marcavisual

A FOTOGRAFIA DE LUIZ CARLOS FELIZARDO
Autor: Luiz Carlos Felizardo – Projeto Gráfico: Sandro Fetter
Brasil Imagem

COLEÇÃO PALAVRA RIMADA COM IMAGEM
Autora: Rosinha – Projeto Gráfico: Rosinha
Editora Projeto

CONTO

A PÁGINA ASSOMBRADA POR FANTASMAS
Autor: Antônio Xerxenesky
Editora Rocco

DAIMON JUNTO À PORTA
Autor: Nelson Rego
Editora Dublinense

DELICADAMENTE FEIO
Autor: Ricardo Silveira
Editora Dublinense

CRÔNICA

BAILARINA SEM BREU
Autora: Mariana Bertolucci
Editora Libretos

FIGOS MADUROS
Autor: Jorge Bledow
Literalis Editora

HAVANA
Autor: Airton Ortiz
Editora Record

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES

DICIONÁRIO DAS MOBILIDADES CULTURAIS: PERCURSOS AMERICANOS
Organizadora: Zilá Bernd
Literalis Editora

HISTÓRIA REGIONAL DA INFÂMIA
Autor: Juremir Machado da Silva
Editora L&PM

Ó MEUS AMIGOS, NÃO HÁ AMIGOS!
Organizadoras: Suzana Albornoz e Eunice Piazza Gai
Editora Movimento

ESPECIAL

AFORISMOS
Autor: Karl Kraus. Organizador e tradutor: Renato Zwick
Editora Arquipélago

CASO KLIEMANN: A HISTÓRIA DE UMA TRAGÉDIA
Autor: Celito de Grandi
Literalis Editora

COOJORNAL: UM JORNAL DE JORNALISTAS SOB O REGIME MILITAR
Organizadores: Rafael Guimaraens, Ayrton Centeno e Elmar Bones
Editora Libretos

INFANTIL

A LUA DENTRO DO COCO
Autor: Sérgio Capparelli
Editora Projeto

DIÁFANA
Autor: Celso Sisto
Editora Scipione

POR QUE O ELVIS NÃO LATIU?
Autor: Robertson Frizero
Editora 8Inverso

INFANTO JUVENIL

LOUCURA DE HAMLET
Autora: Paula Mastroberti
Editora Rocco

O ESTALO
Autor: Luís Dill
Editora Positivo

SUPER
Autor: Marcelo Carneiro da Cunha
Editora Record

NARRATIVA LONGA

DON FRUTOS
Autor: Aldyr Garcia Schlee
Editora ARdoTEmpo

FETICHE
Autora: Carina Luft
Editora Dublinense

O CENTÉSIMO EM ROMA
Autor: Max Mallmann
Editora Rocco

POESIA

CALENDÁRIO
Autor: André Dick
Oficina Raquel

ODE PARANOIDE
Autor: Marco de Menezes
Editora Modelo de Nuvem

OS CÓDIGOS DA ALEGRIA
Autor: Paulo Roberto do Carmo
Editora Território das Artes